[10.julho.2008]
tinhas que voltar. logo agora que o fogo que sentia por ti se extinguira, que me conseguia enganar e fazer acreditar que não, as coisas não poderiam ter sido diferentes e que não poderia ter existido nada mais do que existiu. um tu e um eu desconhecidos que colidiam ocasionalmente, que exigiam existir no mesmo tempo e no mesmo espaço. coisa nenhuma à qual insistíamos em chamar amor.
tinhas que voltar. logo agora que sentia no céu a chegada do dia em que o meu corpo apagaria as memórias que teimam em não querer partir.
roubaste-me o sono, outra vez. não foi preciso muito, um suposto engano foi o suficiente para atear labaredas destruindo o pouco que conseguira reconstruir em meu redor.
e tudo custa mais. custa mais o levantar, o adormecer, o existir. todas as minhas energias são gastas em tentar não te lembrar.
o vazio que tenho no peito pesa mais que o habitual. sinto o mundo desabar e sou o único a aperceber-me disso. tento agarrar o nada como agarraria o tudo, em vão.
por vezes sonho. sonho que alguém chega, me afaga os cabelos, pega nos meus sonhos, quantos deles partidos, e me faz crer que vai ficar tudo bem.
se o mundo acabasse amanhã seria como se acabasse daqui a cem anos. ficaria demasiado por fazer. um amor por construir.
julgava-te longe. queria-te longe. a diferença entre as duas era inexistente. acreditei que podia ser verdade porque assim me convinha.
(excerto de um suposto inicio de livro cuja existência se tinha varrido da minha memória. creio que foi escrito em 2004. outros excertos se seguirão.)