[3.maio.2008]

sometimes things look like they don't have any order, and then, from a different level, you realize that it does have order. it's like climbing a mountain. look around, you see trees and rocks and bushes, pressing around you. and then you get above the tree line, you see everything you just went through and it all like comes together. you know, you see that it has a shape, after all. sometimes it takes a long time to get high enough to see it, but it's there.

old joy

[2.maio.2008]

well, jesus christ, i'm alone again
so what did you do those three days you were dead?
'cause this problem's gonna last more than the weekend.

(há dias que o coração aperta tanto que não sei o que fazer.)

[29.abril.2008]

homens que são como lugares mal situados
homens que são como casas saqueadas
que são como sítios fora dos mapas
como pedras fora do chão
como crianças órfãs
homens agitados sem bússola onde repousem

homens que são como fronteiras invadidas
que são como caminhos barricados
homens que querem passar pelos atalhos sufocados
homens sulfatados
por todos os destinos
desempregados das suas vidas

homens que são como a negação das estratégias
que são como os esconderijos dos contrabandistas
homens encarcerados abrindo-se com facas

homens que são como danos irreparáveis
homens que são sobreviventes vivos
homens que são sítios desviados
do lugar

daniel faria

(daqueles poemas que guardo há anos. como se a não partilha o fizesse ser mais um pouco meu.)

[22.abril.2008]

é só o nada a bater-nos à porta
e a mim importa-me que estejas a meu lado
enquanto o medo vai dançando à nossa volta
é só uma imagem que sonhámos doce imagem
nada que um dia após o outro reproduza
mas meu amor estaremos sempre de passagem
esquece o que eles dizem sobre um grande amor
quem podia mais querer-te como eu
nada que acredite conseguir mostrar pois é algo teu

pluto

(memórias.)

[14.abril.2008]

a cidade destrói corpos quando não reconhece a unicidade de cada um. sinto-o quando no caminho as pessoas me olham como se soubessem de cor a minha história.

[3.abril.2008]

in this hole that we have fixed
we get further and further and further
for what we must do

cat power

já não nos olhamos e a noite é fria. mas até quando amor? até quando teremos a cidade deserta dentro de nós? quando desceremos dos nossos pedestais de planos a cinco anos gisados ao pormenor e começamos a viver? quando deixaremos de querer dobrar a vida aos nossos caprichos e nos dispomos a aceitar os seus desafios como forma de crescer? quando amor, diz-me quando, voltaremos a estar juntos.

(para a sofia. com carinho.)

[20.março.2008]

the woodland spring has put the darkness from your thinking
if this town is your sinking ship
then you know where to jump.


[10.março.2008]

os portugueses não sabem falar uns com os outros, nem dialogar, nem debater, nem conversar. duas razões concorrem para que tal aconteça: o movimento saltitante com que passam de um assunto a outro e a incapacidade de ouvir. não se pode dizer que a segunda decorra da primeira, porque o inverso também é verdade. resultam as duas do facto de as falas não conseguirem atinar com um ‘tom’ comum. porquê? paradoxalmente (ou perversamente), porque o que se procura é precisamente a discordância (não a discórdia) e, antes de tudo, ouvir o som da sua própria voz – pequeninamente, a afirmação autista de si, na fala pronunciada sem a preocupação de ser ouvida ou ser compreendida (porque essa crença nem sequer se põe em dúvida, desde que eu me oiça). produz-se assim uma algazarra insuportável, com todos a falar ao mesmo tempo, cada um com a sua veemência particular sem dar a devida atenção aos outros, seus ‘interlocutores’.
(…) todos se esganiçam uns diante dos outros, como se o facto de se ser ouvido e compreendido não tivesse importância. já não há ‘mensagens’, há apenas ‘barulho’. tem de concluir-se que interessa somente o acto de falar, fundando-se, certamente, na crença mágica de que falando e continuando a falar se força o auditório a aceitar os seus argumentos. ou, mais prosaicamente, elevar a voz e ser o último a falar equivale a ganhar a discussão.

josé gil

[24.fevereiro.2008]

um carro atravessa a grande velocidade a avenida como se a aceleração das partículas o fizesse sair do presente. lá dentro não vão pessoas mas sim fantasmas. não dos habituais. não daqueles que têm alma mas não têm corpo. estes são precisamente o contrário. têm corpo, falta-lhes a alma.
a fuga do presente. talvez seja por isso que as pessoas correm no dia-a-dia. pela ânsia de fugir e conseguir estar em todo o lado menos aqui. procuram, na ausência deste pedaço claustrofóbico de tempo e espaço a que alguém decidiu chamar agora, a salvação.
já anoiteceu. através da vitrina do café álvaro observa os movimentos irregulares dos corpos que passam na rua. com atenção e sem demoras. ele sabe que só assim se pode ver o que é realmente importante. repara como estes deixam um rasto quase invisível à sua passagem. uma sombra negra que lhes sai dos pés e vai sujando a calçada. são os restos de sonhos e aspirações que vão morrendo que alimentam essa sombra.
e álvaro vê como os corpos se vão atolando na sombra. é espessa e limita cada vez mais os movimentos. ninguém se parece importar. já são poucos os que ainda se lembram do propósito, do estado final para o qual devíamos caminhar. quando chove preocupamo-nos em olhar o chão e amaldiçoar a chuva quando devíamos olhar para cima e procura entender de onde vem. 'o que é que andamos cá a fazer? e o que estamos a fazer nesse sentido?' pergunta álvaro para o dono do café enquanto sai porta fora.
chegou o fim do dia e os passeios da cidade são da cor do alcatrão.

[3.fevereiro.2008]

respirou fundo como quem acorda e tenta apanhar ínfimas partículas de silêncio antes de se entregar à voracidade do dia-a-dia. a casa está escura e as paredes já não são brancas. as infiltrações durante anos seguidos tornaram o branco da esperança e do sonho que começa num amarelo de pobreza. ao centro da sala a secretária de antónio. austera, opaca, de traço direito. ele sempre encontrara a beleza nas coisas mais simples.
deixou a cabeça repousar um pouco mais sobre o tampo da mesa e levantou-se. a um canto, encostado à parede, fuma um cigarro enquanto olha fixamente os papéis espalhados. é a sua vida que ali está. observa aquelas folhas e pensa como numa pequena quantidade de papéis poderia estar toda a sua vida. mas de facto está.
caminhou de volta à cadeira e sentou-se. olhou aquelas palavras e sentiu-se feliz. desta vez conseguira transpor o abismo que tinha construído entre aquilo que era e o que dizia. a sua solidão já não era do tamanho do mundo. agora já não contava nenhuma história como aquelas que lhe deram sustento durante anos e que as pessoas compravam sofregamente na ânsia de se sentirem mais infelizes. estas palavras eram diferentes.
‘para a marta, por tudo aquilo que não soube ser’ escreveu numa folha branca que colocou no topo de todas as outras.